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Série Saúde Ocular - VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DA SÍNDROME DO BEBÊ SACUDIDO?

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Por: Mildred Gois - Médica do Hospital de Olhos Rollemberg Gois (CRM 4467-SE)

A Síndrome do bebê sacudido (SBS) foi descrita como entidade clínica por Guthkelch em 1971 ou por Caffey em 1972, mas já era conhecida como uma forma grave de abuso físico infantil. A SBS costuma ser identificada em crianças menores de 2 anos de idade e, especialmente, em bebês pequenos, ao redor de 6 meses de vida. É definida como uma agitação vigorosa do corpo da criança com sacudidas exageradas da cabeça, quando a criança estiver sendo contida pelas suas extremidades ou pelos ombros.

Esses múltiplos movimentos de aceleração e desaceleração da cabeça, de curta duração e sem choque direto contra um objeto ou superfície, são responsáveis pelo aparecimento de graves complicações oculares e neurológicas, como ruptura dos delicados vasos cerebrais e retinianos, acarretando em alguns tipos de hemorragias intra-cranianas e intra-oculares. O acometimento ocular em 85% dos casos se dá por hemorragias retinianas múltiplas e bilaterais.


Fatores de risco:


A SBS e suas graves consequências podem ser prevenidas. Estudos demonstraram que cerca de 60% dos casos fatais de SBS poderiam ter sido evitados. Existe correlação positiva entre o choro incontrolável do bebê e a incidência de SBS que pode ser atribuída aos sentimentos de impotência, frustração, exaustão, culpa e até de raiva dos pais despreparados ou dos cuidadores das crianças que culminam com a agressão física ao bebê. Sabe-se que os abusadores mais frequentes são os pais, padrastos ou companheiros das mães (60%) seguindo-se as babás (17,3%).

Sinais e sintomas:


A maioria das vezes a história clínica é muito vaga, sem sinais exteriores de traumatismos. Caso o trauma não seja muito acentuado, os sintomas podem ser inespecíficos do tipo irritabilidade, choro permanente, inapetência e sonolência. Em casos mais graves poderá haver convulsões, distúrbios neurológicos maiores como o estado de coma e parada respiratória.


Como em geral o paciente afetado pela SBS é levado a um serviço de emergência, o médico plantonista, antes de qualquer atitude, deve suspeitar da ocorrência de uma SBS mesmo com os pais ou cuidadores não mencionando a ocorrência de traumatismo craniano. A partir daí deve-se prosseguir uma investigação com exames complementares de imagem, neurológicos e oftalmológicos.


O Oftalmologista deverá examinar cuidadosamente a criança buscando evidências de agressão e fazer exame de fundo de olho bilateral, sempre sob midríase (sob dilatação). A perda parcial ou acentuada da visão pode se dar pelos danos retinianos decorrentes das hemorragias, por atrofia dos nervos ópticos, por dano cortical cerebral ou por ambliopia por deprivação visual pela presença de sangue acumulado na mácula ou vítreo.


Qual o próximo passo a ser tomado?


Após a identificação da ocorrência de um caso de SBS, as autoridades legais deverão ser informadas e isso é uma obrigação do médico assistente. O Brasil possui legislação específica (Lei nº 1968 de 25 de outubro de 2001) que rege sobre todos os casos de suspeita ou de abuso infantil confirmado que devem ser necessariamente informados ao Conselho Tutelar ou à Corte da Criança e do Adolescente. O Brasil possui, ainda, diretrizes específicas publicadas pela AMB para as condutas médicas a serem tomadas frente a situações suspeitas ou confirmadas de SBS.