• Alessandra Cattani

Quando é insuportável a arte amar


Vamos entender e considerar que a essência de ser humano é um estado de amorosidade, gratidão e generosidade. Para confirmar isso podemos remeter aos momentos de catástrofe, à teoria da pirâmide de Maslow ou simplesmente olhar para um bebê. Por isso quando buscamos “o amor” parece que buscamos numa profundeza da alma, algo que antes fora experimentado. Num geral entende-se o amor como uma união de iguais, “se todos formos iguais, nos amaremos”. Penso, que de fato isso deve se referir ao amor uterino, onde a criança e a mãe são um só. Porém, reencontrar com esse estado de amor para alguns pode ser bem doloroso, quase insuportável. Inclusive, mesmo sendo o terror do tabu social, entender que mesmo para algumas mães é insuportável amar. Consequentemente, para alguns pais e alguns filhos também. Às vezes, construir um vínculo é doloroso, logo, as pessoas o evitam.

Basta verificar se há uma relação entre viver relacionamentos difíceis e falidos com a incapacidade de reconhecer a própria emoção. Se o cérebro não sabe lidar ou reconhecer um problema ou emoção, há uma falha em como sentimos o amor. Sabe quando a criança está bastante ansiosa pra ver, por exemplo, um personagem que ela gosta muito, mas ao ter esse encontro ao invés de sorrir ela chora? É a incapacidade de reconhecer a emoção, às vezes, sente-se apenas o furacão interno, e já não há como identificar o que realmente se sente. Assim, percebemos tantas dinâmicas distorcidas, e dizemos que o ódio é o sentimento mais próximo do amor. O amor, que, inclusive, transferimos da infância para a vida adulta.

O berço para o amor é a vulnerabilidade. Mas, via de regra, crescemos para não sermos vulneráveis. Para nos defender e não sentir medo. E, nessa evolução, usamos a raiva para dar limite ao outro. Quando, por fim, não sabemos reconhecer essas emoções, essa forma se torna desordenada.

Então diz-se que amar é doloroso ou complicado e evita-se o amor, com o grito do medo entalado na garganta. O medo de sofrer, o medo de amar. O amor não faz muitas perguntas, porém, começar a pensar nele é evocar o medo. Então é assim, se resume ao medo. O medo do barulho, o medo do amor que chega mesmo sem querer. O amor que se clama e se evita. E não se trata do amor como um relacionamento, mas do amor como sentimento.

À medida que se tenta reconhecer fora do útero aquilo que sentimos dentro, vem a percepção de que uma mãe não está totalmente disponível para “esse” amor, com um pai inacessível ou ausente, ou seja, com as faltas, a exclusão e a culpa. A Teoria Sistêmica da Constelação familiar contempla essa visão quando fala da forma que o amor se desenvolve em cada sistema.

Há um provérbio chinês que diz “quem não reflete, repete”. Refletir ou repetir a forma de amor da nossa constelação familiar pode vir de muitos erros e tentativas. Você se fortalece à medida que se percebe na forma de diversos lares, gestos, fragmentos de vida, de história, de memória.

Como um universo traduzido na sua capacidade de ver, refletimos a forma de amar do nosso sistema. É como tentar ver o universo através do reflexo de um espelho, mas ainda assim ser um reflexo. E transformar tudo em ações conscientes e menos inconscientes é o grande propósito em busca do amor que seja bom e generoso.

Continuar na tentativa de reconhecer fora o amor que está dentro. É entender que todas as nossas habilidades e emoções acontecem numa competência inconsciente. É circunstancial que só podemos encontrar o amor, na consciência. Pois nesse estado estamos prontos para criar ou refletir de forma proposital.